sábado, 25 de abril de 2009

Saudade

"Antes quando eu tinha saudade dele, eu ia lá, na chácara, ou em casa e o encontrava. Agora, eu vou aos seus cantinhos e não o encontro mais. Isso é o que mais me aperta o coração"....

quinta-feira, 23 de abril de 2009

CREPÚSCULO

Vovô Kazuó morreu no dia 22 de abril, poucas horas depois que postei o texto sobre ele. Agora, deixo a perfeição das letras composta por minha irmã, Cinthia. A realidade em poesia.
Obrigada a todos os amigos que ligaram, mandaram mensagem e que estiveram conosco nesses dias difíceis.
Lenir.
Crepúsculo
"Nasce o Sol e não dura mais que um dia
Depois da luz, se segue a noite escura
Em tristes sombras morre a formosura,
Em profundas tristezas, a alegria"

Rápido demais, se põe o sol no horizonte, deixando nada mais que escuridão.
Ele nem viu o sol nascer.
Assim vai a vida solta, ninguém pode prendê-la.
Enclausurada numa semente, cai na terra e germina.
Dali seus galhos se extendem para ganhar flores, produzir frutos, se tudo der certo, gerar novas sementes.
E hoje ficamos todos ali, a grande plantação do humilde agricultor. O homem simples.
Nunca teve a arrogância de tentar produzir filosofias de vida, grandes ensinamentos. Era um homem da natureza e, como ela, ensina sua lição nos seus passos, despretencioso.
“As pessoas falam que 50, 70 anos é pouco, fia, mas pra quem vive isso é chão dimais! Óia, eu nem lembro mais direito da minha infância!...”
Mas as mil histórias da infância não saem da ponta da língua. Cada terra, cada plantação, o nome de cada gente que tropeçou em suas raízes, que pisou na sua terra.

"Porém se acaba a luz, porque nascia?
Se é tão formosa a luz, porque não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim de fia?"

É que agente não aprende a ser feliz, agente simplesmente fica. Vôvô fazia isso, por que era feliz, porque vivia, não porque quisesse ensinar alguém, porque quisesse mudar a vida de ninguém. E ninguém mudava o curso da dele.
Ô tava, ô num tava.
“Se eu miorá, nois vamo chupá quelas laranja que eu plantei. Plantei de todas. Daqui 3 anos vai ter laranja demais.”
Termina uma vida sem arrependimentos, leva a leveza nos ossos. Sucesso é um pimentão verdinho, um pepino bem reto e graúdo. Sucesso teve muitos! Muito mais que a gente, besta, vai ter, tentando salvar o mundo.
"Mas no Sol e na luz falte a firmeza
E na formosura não se dê constância
E na alegria sinta-se a tristeza"
Fica só a saudade. Saudade boa, de algo que foi até o fim. Sem olhares pra trás, sem ditos por não ditos. Saudade doída, daquelas que não dá pra matar.
O bisneto chorando baixinho, de saber que não pode mais ver o vovô. A voz firme, aprendida com o velho, que com ele nem era tão firme assim.
Ele imóvel nem mesmo era ele, quem nem dormindo ficava quieto.
Fica ele de volta à terra que tanto amou.
E comigo só minha covardia, que não suportei vê-lo piorar.
A vida se foi, leve como ele a levou. Simples como é a vida.
O sol se pôs, rápido demais. Sempre mais do que a gente queria.
Ficamos, sós, na escuridão.Rápido como o dia,a vida termina.
"Comece o mundo enfim pela ignorância
Pois tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância"
Um beijo e um adeus, pro meu vôvô Kazuó". Cinthia B. Camimura

terça-feira, 21 de abril de 2009

Supressão

Das minhas lembranças de infância, não são muitas as que estão registradas na casa dos meus avôs paternos, em Anápolis. Foram poucos os domingos que ficamos por ali durante toda a minha vida. O suficiente para registrar que almoço na casa da vovó tinha que ter macarronada, salada de maionese e frango ao molho. E um refrigerante que meu avô fazia buscar ou que ele mesmo trazia da venda.

Meu avô é o japonês responsável pela manutenção de nosso sobrenome exótico - Camimura. Ele mesmo, apesar de ter nome brasileiro, só é conhecido pelo "Kasuó" oriental. Aliás, seus irmãos se chamam Borgue, kasutó, Kasumi e o mais novo, Ricardo! Vai entender....

Vovô Kasuó é um japonês magro, trabalhador, obstinado e teimoso. Não conheço muitos projetos que tenha conseguido concluir, incoerentemente, mas ele sempre começa de novo e de novo e de novo. Como em todos os lugares onde ele morou, em sua casa sempre tem uma quitanda, um mercadinho, uma vendinha. No quintal, ele planta morangos, couve, alface e qualquer outra coisa que tenha espaço. Ele já criou galinhas, porcos, gatos e cachorros. Aliás, os bichos adoram o meu avô, bem como todas as pessoas que o conhecem.

Ele tem um jeito engraçado de falar e conta histórias de antigamente com uma memória surpreendente. Mas, como todo bom japonês, é um homem bravo, mas que acabou amaciando com os netos, como todo bom avô.

Meus avós são primos e, apesar deles não contarem os detalhes desse romance, sabe-se que eles foram sempre apaixonados. Minha avó, Maria, do lado português da família, teve oito filhos. Meu pai é o primogênito e, por isso, é tratado com todo o respeito e regalias que a tradição japonesa prega. Eu sou a primogênita do primogênito e, de certa forma, sinto como se admiração que eles têm pelo meu pai caísse sobre mim como uma espécie de herança.

Meu pai também é um homem sério e quando precisa puxar a orelha dos meus avós, ele sempre é chamado. Me lembro perfeitamente de nós rirmos do jeito do meu pai dizer "melhor professor que eu tive foi o pai", mas ver que era verdade.

Meu avô sempre teve um olhar decidido. Ele sabia onde queria ir e sabia o que queria fazer. Ou parecia que sabia. Não tinha medo de trabalho e suas mãos, unhas - roupas, cabelo.... - sempre estavam sujas de terra. E eu admirava o vovô que, mesmo não fazendo exatamente o que era certo, fazia o que queria.

Agora, da porta do quarto de hospital, eu o vejo sentado na cama. Soro na veia, oxigênio no nariz. Meus tios estão sentados ao redor, esperando que ele diga qualquer coisa. E ele chora. Chora porque quer ir pra casa, porque não quer ficar "suzinho", porque não quer mais ficar parado, como não é de seu feitio.

Meu pai está ao seu lado e com amargura passa óleo em suas costas para aliviar o mal estar por ficar tanto tempo deitado.  Nos últimos dias, tudo o que ele tem feito é mandar chamar meu pai para tirá-lo dali, mas papai sabe que não pode, que não dá. Me assusto com o quanto o rosto de vovô está inchado. E meu pai passa as mãos pelos cabelos de seu pai e ora, pedindo a Deus por conforto.

E eu vejo os olhos do vovô Kasuó. Não são mais decididos, mas estão perdidos, demonstrando desconsolo. E me aperta o coração ver o que o câncer fez. O homem forte, lutador, está prostrado, vencido, sem capacidade sequer para tomar as próprias decisões sobre seu corpo.

Ele geme e nós trememos. E o peso cai sobre o quarto. Porque todos nós sabemos que nenhum de nós pode tomar a decisão sobre qualquer dos próximos momentos.

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Bate o sino

Passei o final de semana dividida entre a oportunidade de dias livres e o compromisso de terminar uma revista a tempo, como combinado. Me rendi à obrigação. Por que? Porque empenhei minha palavra e porque é minha responsabilidade.
Trabalhei, digamos, umas cinco horas durante todo o final de semana e feriado. Não é muito, se forem consideradas todas as 72 horas que esses dias tiveram. Mas isso não importa. Porque meu nível de concentração demorou para subir e isso significa que fiquei plantada no escritório muito mais do que isso, desperdiçando minhas horas de ócio com serviço que só deveria ser feito durante a semana normal de trabalho.
Reconheço que ninguém merece trabalhar nesses dias e, sequer me sinto satisfeita por isso. Mas....a woman has gonna do, what a woman has gonna do. Que diferença faz? Não havia nada de mais interessante para ser feito com aquelas horas, de qualquer forma. Ninguém podia ir ao cinema, meu avô estava internado e o clima em casa não está dos melhores. Eu ia acabar gastando todo o restante do dia na frente da TV, fazendo nada.
A menos, é claro, que tivesse de responder à cobranças: Por que não ligou? Por que não veio atrás? Por que não escreveu? por que não atualizou? Por que não montou? Por que não viveu?!?
Danem-se as cobranças. Elas não me ajudam, não resolvem meus problemas, não melhoram meu dia, não aprofundam meus relacionamentos. Pelo contrário. Ninguém veio saber o porquê dos meus olhos lacrimejantes e ninguém se ofereceu para escrever um único parágrafo da minha matéria. Então, que te interessa?
De cobranças bastam as que eu mesma me faço e as que, por obrigação, tenho de responder ao meu chefe. Se outros não pagam meu salário - e meu tempo - também não me cobrem o que quer que eu esteja fazendo com ele....("Já foi apedrejada hoje?" -"Só pela minha consciência")

sábado, 28 de março de 2009

Cada um com seu cotovelo

Assim: Lutar contra ansiedade é uma tarefa diária. Diária? Melhor sermos honestos: é tarefa para cada hora do dia. Tem dias que não dá pra esperar e o jeito é ceder à tentação e encarar a barra de chocolate pra suportar a falta de ar e a agonia que a expectativa não-cumprida causa.

Minha ansiedade tem sido controlada no formato "montanha-russa": hoje eu consigo, amanhã, não. Tem dias que o simples pensar na situação é motivo para travar os músculos, doer a cabeça, transpirar e suspirar. A pupila dilata, o coração acelera e, como eu disse, falta ar aos pulmões. 

Mas o que é isso? Uma descrição de uma crise de ansiedade ou uma paixonite aguda? Não faço a menor ideia. As duas sensações, de fato, se confundem. Deixo para os entendidos da fisiologia do corpo humano explicarem. Na verdade, não me interessa.

O que me interessa é que, aparentemente, a não ser que a ansiedade se torne uma doença, não há como tratá-la. Não tem exercício que resolva, nem chocolate que a aplaque. A mim, a ansiedade é praticamente uma companheira. É por ela que eu sei quando tem algo errado acontecendo, quando devo me esforçar para me concentrar porque meus prazos estão acabando e quando devo ficar em casa pelo simples fato de que encontrar certa pessoa vai me causar mais decepção e rejeição do que prazer.

Negar a vontade de atender aos clamores da minha ansiedade, em particular, neste último caso é uma forma de proteção. É manter o meu muro erguido o suficiente para me contentar com o "não" que já possuo e garantir que o ar da possibilidade de ser indeferida sequer exista. É ter certeza de que o radical da palavra não caia e só me sobrem os adjetivos de ansiosa e mal-amada.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Vícios

Estou tentando, há pelo menos 3h, descobrir como cancelar minha conta no Twitter. Primeira explicação: twitter é um microblog em que vc diz, em 140 caracteres, o que está fazendo. As pessoas te acompanham e vc acompanha as pessoas. Sabe da vida de todo mundo e todo mundo sabe da sua.


Segunda explicação: estou tentando sair porque estou viciada em noticiar o que faço e saber da vida dos "amigos" de twitter. Nos lugares mais inesperados, nos momentos mais inoportunos, na presença de qualquer um, lá estou, puxando o celular para verificar as novidades da microvida do microblog.

Estou tentando me livrar do journal pelo simples fato que me incomoda o pensamento de que a vida está tão corrida, tão ocupada, que não temos mais tempo para sentar com pessoas reais e manter um relacionamento real, que envolve o ser integral e não apenas o que ele constrói no espaço cibernético.

Me incomoda o fato de que acompanho a vida de desconhecidos e, sem querer, me torno cúmplice de seus pensamentos, de seus desejos, de suas lamentações e de suas retwittadas, que me encaminham a novas páginas, a novas vidas e a uma multidão de informações que em nada acrescentam.

Que me interessa saber se @fulano acordou cedo/tarde, está trabalhando/não está, gostou/não gostou de qualquer coisa? Quem é, afinal, @fulano???? Por que estou permitindo que pessoas desconhecidas opinem sobre meu #medo e aceitando que tudo seja #armadilhadesatanas?

Estou cheia de tanta superficialidade.

Me peguei com saudade dos "amigos de twitter" no final de semana, mesmo estando rodeada de amigos reais, que falavam comigo! E isto, obviamente, foi noticiado no meu twitter.

Chego à conclusão que as pessoas têm prazer em se expor, em querer que os outros saibam de si, dos seus passos. Ninguém pode retaliar a invasão de privacidade, porque estão todos dispostos e disponíveis a abrir a própria.

Fui criticada, durante um almoço de família, porque, em meio à conversa, saí com "hahaha, hashtag medo!". Hein? O que isto quer dizer???? (hashtag uma palavra que pode se tornar um link e, por meio dela, conferir quem mais andou falando o mesmo que vc. no caso, #medo)

Por tudo isso, por toda a invasão e permissão, por toda a poluição no vocabulário, por todos os pensamentos e segundos perdidos na conferência da atualização do twitter, e por este post tão sem noção quanto participar da onda do momento, desisto de ser @alguém de qualquer um.#prontofalei.

P.S.: se alguém souber como se faz para cancelar a conta no twitter, por favor, me conte!
Vejam o vídeo explicativo: http://www.youtube.com/watch?v=YgAlE33lCQA

sábado, 21 de março de 2009

Lamentos

Pseudo-intelectuais abrem a porta, me convidando para entrar. Do lado de dentro, o mundo de cabeça para baixo. Drogas lícitas os distinguem de seus protegidos. Mas o que eles chamam de "trabalho", os detentos chamam de "cotidiano". 
Por trás dos sorrisos e dos copos de whisky com gelo e água de côco, mal sabem eles que os prisioneiros são os rostos conhecidos no espelho. A fumaça dos cigarros envolve toda a sala, em completo desrespeito a minha alergia.
Me acomodo no canto solitário, observando e, nitidamente, reprovando o cenário com meu olhar.
Eles riem e apontam e não compreendem meu distanciamento. 
E dentro de mim, eu descubro meus dedos apontados contra cada um deles, em julgamento. Me faço juíza do vazio interior a que se submetem. Escarneço e zombo de seus atos frívolos e de sua ansiedade declarada de preencher os minutos da noite com qualquer lixo sociológico que a realidade juvenil lhes oferece.
E olho pra mim, em minha hostilidade e bossalidade, me julgando também: superiora a todos. Maior, melhor. Intitulando o que eles chama de "festa", de "perda de tempo". egocêntrica, não me divido, não compartilho e, se alguma solução guardava para tirá-los da insensatez do desperdício dos dias, guardei em meu bolso.
Bestial. Superficia. Frívola.
A vida minha e deles. Na ânsia pela diversão, tornamo-nos, todos, palhaços de circo.