terça-feira, 21 de abril de 2009

Supressão

Das minhas lembranças de infância, não são muitas as que estão registradas na casa dos meus avôs paternos, em Anápolis. Foram poucos os domingos que ficamos por ali durante toda a minha vida. O suficiente para registrar que almoço na casa da vovó tinha que ter macarronada, salada de maionese e frango ao molho. E um refrigerante que meu avô fazia buscar ou que ele mesmo trazia da venda.

Meu avô é o japonês responsável pela manutenção de nosso sobrenome exótico - Camimura. Ele mesmo, apesar de ter nome brasileiro, só é conhecido pelo "Kasuó" oriental. Aliás, seus irmãos se chamam Borgue, kasutó, Kasumi e o mais novo, Ricardo! Vai entender....

Vovô Kasuó é um japonês magro, trabalhador, obstinado e teimoso. Não conheço muitos projetos que tenha conseguido concluir, incoerentemente, mas ele sempre começa de novo e de novo e de novo. Como em todos os lugares onde ele morou, em sua casa sempre tem uma quitanda, um mercadinho, uma vendinha. No quintal, ele planta morangos, couve, alface e qualquer outra coisa que tenha espaço. Ele já criou galinhas, porcos, gatos e cachorros. Aliás, os bichos adoram o meu avô, bem como todas as pessoas que o conhecem.

Ele tem um jeito engraçado de falar e conta histórias de antigamente com uma memória surpreendente. Mas, como todo bom japonês, é um homem bravo, mas que acabou amaciando com os netos, como todo bom avô.

Meus avós são primos e, apesar deles não contarem os detalhes desse romance, sabe-se que eles foram sempre apaixonados. Minha avó, Maria, do lado português da família, teve oito filhos. Meu pai é o primogênito e, por isso, é tratado com todo o respeito e regalias que a tradição japonesa prega. Eu sou a primogênita do primogênito e, de certa forma, sinto como se admiração que eles têm pelo meu pai caísse sobre mim como uma espécie de herança.

Meu pai também é um homem sério e quando precisa puxar a orelha dos meus avós, ele sempre é chamado. Me lembro perfeitamente de nós rirmos do jeito do meu pai dizer "melhor professor que eu tive foi o pai", mas ver que era verdade.

Meu avô sempre teve um olhar decidido. Ele sabia onde queria ir e sabia o que queria fazer. Ou parecia que sabia. Não tinha medo de trabalho e suas mãos, unhas - roupas, cabelo.... - sempre estavam sujas de terra. E eu admirava o vovô que, mesmo não fazendo exatamente o que era certo, fazia o que queria.

Agora, da porta do quarto de hospital, eu o vejo sentado na cama. Soro na veia, oxigênio no nariz. Meus tios estão sentados ao redor, esperando que ele diga qualquer coisa. E ele chora. Chora porque quer ir pra casa, porque não quer ficar "suzinho", porque não quer mais ficar parado, como não é de seu feitio.

Meu pai está ao seu lado e com amargura passa óleo em suas costas para aliviar o mal estar por ficar tanto tempo deitado.  Nos últimos dias, tudo o que ele tem feito é mandar chamar meu pai para tirá-lo dali, mas papai sabe que não pode, que não dá. Me assusto com o quanto o rosto de vovô está inchado. E meu pai passa as mãos pelos cabelos de seu pai e ora, pedindo a Deus por conforto.

E eu vejo os olhos do vovô Kasuó. Não são mais decididos, mas estão perdidos, demonstrando desconsolo. E me aperta o coração ver o que o câncer fez. O homem forte, lutador, está prostrado, vencido, sem capacidade sequer para tomar as próprias decisões sobre seu corpo.

Ele geme e nós trememos. E o peso cai sobre o quarto. Porque todos nós sabemos que nenhum de nós pode tomar a decisão sobre qualquer dos próximos momentos.