segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Sem medo

Um vento fresco empurrou a janela, entrou pela casa e trouxe cheiro de mudança. Anunciou o que já esperava: vem novidade por aí! Me empurrou devagar pela sala e me fez olhar a janela do horizonte, contemplando um futuro que ainda vai ser construído.

O sol brilhante fez reluzir o caminho que será traçado. Ele ainda não está pronto, mas aguarda as próximas peças, os tijolos amarelos, os trilhos nos Alpes quando ainda não existia trem*. Um arrepio me cortou a espinha. Seria medo? A velha pergunta veio como um sussurro dos quartos: "e se eu falhar?".

Abri as cortinas, tentando espantar o pensamento e o receio. Tirei a poeira da soleira e li a verdade que havia esquecido: "Mudanças não são simples. Elas exigem sacrifícios". Para falhar, basta dar lugar ao temor e ficar remoendo as dificuldades, ao invés de encará-las.

Lembrei da balança que, desde A Grande Decisão, havia recuado 8kg, dos 15kg que precisavam sair. Lembrei da estrada, que me chamava pela manhã, como uma amiga que se aproximava sem suas críticas, mas com palavras de ânimo e reforço - "Você pode!". Lembrei dos filmes preferidos sobre viradas, dos textos da amiga Rê Cabral e da máxima divina "Tudo posso nAquele que me fortalece".

Lembrei da borboleta saindo do casulo: energia, força e esforço. Perdas de pele, tecido e reconstrução. Um processo que começa em seu nascimento e que se desenvolve até o grande dia da metamorfose. Sangue correndo pelas novas veias das asas, transformando-a no que nasceu pra ser: um ser alado, brilhante e admirado.

O vento fez a curva e me trouxe esperança. Renovou o ânimo e me fez aceitar o desafio: vai me custar, mas não posso desistir. É hora de renovação. É hora de trabalhar. É hora de fazer meu melhor. Por mim mesma. Sem medo.

*Citação do filme "Under the Tuscan Sun".

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Tagging myself

Estou precisando escrever. Pra ver se eu descubro o que ainda está encoberto dentro de mim. Precisando escrever sobre os dias e seus encantos; seus enganos e dissabores; seus planos e decepções. Precisando escrever sobre mim, meus achismos e sensações, pra ver se descubro onde foi que, obtuso, eu me escondi de mim.

Num momento em que a vida parece calma, com o exterior se movendo lentamente - e estranhamente - fora de seu padrão, é nesses dias que o desafogo me deixa pensar em mim. E me reencontrar nunca é fácil e simples. Tem dores deixadas pra trás, vontades insuperáveis, perguntas demais sem resposta.

Não é aqui, contudo, que minha auto-análise (mentém-se o hífen nesse caso???) virá. Meu descrever não é matéria pública; não é carta aberta; não é anúncio em neon. É assunto pra quatro paredes, um lápis, um caderno, uma xícara de chá, lágrimas guardadas nos cantos dos olhos e um escritor. 

Um escritor e um autor. Eu e Deus. 

quarta-feira, 4 de julho de 2012

Perfeitamente imperfeitos

Imperfeições....que tornam tudo perfeito. Pq as minhas não são as suas e as suas não são as minhas, mas ambos as temos. Isso me faz te olhar com misericórdia e empatia, e receber de volta o mesmo. Me faz entender que não somos melhores do que o outro, mas que nossas imperfeições nos completam...



segunda-feira, 14 de maio de 2012

Vento de Saudade


Impetuoso, encheu a casa. Varreu os cômodos e seus incômodos. Tirou a poeira do comodismo, do lugar-comum e renovou a vontade do abraço, do sorriso e da presença.
Veio avassalador e me tirou o sossego. Bagunçou os cabelos, subiu a saia, trouxe arrepios e melancolia. Balançou os bibelôs na estante e corri pra fechar as janelas. De nada adiantou: a saudade veio cavalgando na crista do vento e se instalou no sofá da sala.
Sentiu-se visita e esperou o café. Contou de sua estrada errante, de seus caminhos longíquos e de seus passos em direção a mim. Escolheu a oportunidade certa e já chegou fazendo barulho. Me cobrou a atenção e a consideração de um parente distante. 
Não me deixou dormir com sua voz estridente. Não me deixou comer com suas queixas doloridas. Não me deixou respirar sem sufocar meu peito.
Instalou-se, confortavelmente, sem data para sair. Não pagou o aluguel, nem perguntou se poderia ficar. Simplesmente chegou, abraçada ao vento do momento, com suas roupas de cinza degradê. Se alimentou de meu sofrimento e segue contínua e crescente, até que a porta se abra e o sol penetre com o calor amável daquele que retornou.

terça-feira, 27 de março de 2012

Dia a dia

Eu conto os dias pelo meu trabalho. A cada boletim novo que escrevo, lá no topo está a data do dia e assim me oriento no calendário. Saltar um dia ou adiantar uma matéria é desarranjar minha anotação mental da posição em que estamos no mês.

Com felicidade, gravei hoje o arquivo do dia 27. Final de mês, finalmente. Isso significa salário novo saindo, o hoje passando mais rápido, o futuro chegando na velocidade da expectativa. Nem tanto, mas novos dias se aproximam.

O que me leva a pensar: não estou deitada numa cama, ociosamente, esperando o dia passar. Meu calendário continua recheado de atividades, de afazeres que parecem não ter fim. Com as preocupações normais da vida, as pressões normais da agenda, as vontades normais pelas mudanças.

Aproveitar o tempo, remi-lo, como diz a Bíblia, não é encher as horas de lazer somente. Mas é viver na plenitude: fazer o que é preciso, quando for preciso, organizando as pressões, trabalho, lazer, amigos, Saúde e tudo o mais que preenche os dias, de forma a ter a sensação de saciedade ao deitar a cabeça no travesseiro.

Tem dias que isso, simplesmente, não é possível e fico presa a uma única atividade, a um único sentimento, a um único qualquer coisa. Posso dizer que isso é desperdício? Não. Para amadurecer ideias, razões, motivos e circunstâncias também é preciso espaço e, de vez em quando, um pouco mais de dedicação. Mas não podem estagnar a vida.

Por isso, celebro o fim de mais um mês bem vivido, bem preenchido. Talvez não como eu tinha esperado e/ou planejado, mas com a bênção do pouco estresse. Celebro o andar da carruagem, a contagem dos dias que não cessam e a oportunidade de fazê-los melhor e de forma diferente, a cada dia.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Interpretando o EU numa segunda

Você abre a vida numa segunda-feira amarrotada e, de repente, percebe-se perdida de si mesma. Não conhece aquele rosto sorridente e aquela confiança elogiada.

Olha pra si e pergunta onde foram parar seus conceitos, suas defesas, suas crenças. Nada restou de quem um dia foi e que definiu seus passos até o presente?

Questiona o modo de pensar, de aceitar, de andar, de entender e de viver. Questiona as concessões, as palavras, os sentimentos e a razão. Questiona o eu, o ego e o apego. E as perguntas seguem vazias de resposta.

Não se lembra sequer quando foi que deixou de ser quem era para tornar-se o que é. Que mal havia na transformação? Que crescimento trouxe a metamorfose? Limpa o exagero do cenário geral e vê que nem tudo está perdido.

Usa a balança, a peneira e o "desamassador" do bom senso e com um longo e estralante bocejo, espreguiça, ciente de que a vida não é a mesma e que você não é a mesma, mas é preciso se adaptar até que tudo se torne normal durante o dia...

E saia logo dessa cama, que, como disse, hoje é segunda-feira!

terça-feira, 6 de março de 2012

Silêncio


Arde.
Das lembranças surge o passivo de dor não curada. Contabilidade mal feita dos dias e das expectativas. Um vislumbre da possibilidade, do projeto, do sonho e do arquétipo jogados pela janela indiscreta do sem querer.

Palavras tortas com tom dissonante, disfarçados na atenção gerada pela culpa dos verbetes rolados pela língua abaixo, sem o bloqueio ou trava do pensamento.

Quando viu, já foi. O som já saiu. As cordas vocais já tremeram. As ondas sonoras já caminharam no espaço e atingiram os ouvidos, os tímpanos e o coração.

O receptor cai morto, atingido pelo significado e significante da mensagem que, de repente, destruiu seu fôlego de vida.

Uma ansiedade a menos. Uma taquicardia a mais. Mais uma vírgula arrancada do discurso do possível. Mais um dejeto no muro das lamentações internas.

E pronto. Ferida que arde, corroi, expõe e questiona a certeza que agora é firme como gelatina.