segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Chuva


Aplausos.
Contei minhas aventuras, escondendo os detalhes que poderiam ser julgados e criticados. Escondi minhas fraquezas e desastres debaixo do tapete do meu silêncio. Pincelei com cores coloridas o que, na minha solidão, se tornava meu fantasma descorado. Aprumei as costas, me firmei sobre o salto, andei segura, sem desviar o olhar.

Convenci a platéia de meu sucesso, tingi meus sonhos de amarelo e segui caminhando, como se a verdade pudesse ser mudada. Engoli o choro, enegreci a alma, endureci o coração. Disse não ao que soava humilde e me voltei para o sorriso fulgaz e enebriante.

Ganhei aplausos, tapinhas nas costas.
Conquistei o mundo.
Vendi a vida.

Desamparada de reconhecimento, com a maquiagem borrada pelo suor e pelo choro, desatei os nós do meu cabelo e deixei-me ser conhecida por mim mesma. Desvendei meus mistérios e conheci minhas correntes. Deparei-me com o fundo do poço que, a cada visita, se tornava mais fundo, mais vazio, mais ruidoso.

Olhei pra cima e avistei as nuvens. O sol brilhava por detrás da chuva. Uma esperança de que o frio da minha alma pudesse ser aquecido. Levantei, imunda, enlameada, medíocre, abandonada e deixei que a água que vinha do céu me lavasse, levando embora minha podridão, meu sarcasmo, minha hipocrisia.

Sorri leve e aliviada, ouvindo o aplauso do Céu....Ah, Pai....


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Ventos de mudança - a nebulosa

Passou. Como um pequeno tornado, tirando todas as coisas do lugar, ela passou. Mudou a forma de olhar a paisagem, de sorrir para o nada, de vestir para o cotidiano, de esperar pela hora do adeus.
Passou e levou consigo pouca coisa de mim. Mas para trás deixou a impressão de aventura, com sabor de coisa boa, com perfume de novidade.
Rodopiou no ar a poeira da vida, bagunçou cabelos e foi-se embora para outras paragens. Deixou-me de presente as lembranças, as brincadeiras de criança e a sensação de que é preciso movimento contínuo para que a rotina não se torne uma hospedeira.
Sorriu no espaço e me mandou um beijo, uma piscadela e um desejo: mais uma mudança metamórfica. Mais uma cor resgatada às minhas asas de borboleta....

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Seco

Revirou-se de um lado para o outro até que, por fim, despertou do pesadelo. O sol já ia alto e entrava pela cortina, com força. Ainda tonta e sem firmeza pela noite mal dormida, ela se levantou e caminhou até a janela.
Abriu as duas folhas e tentou respirar fundo. O vento entrou quente e seco. Mais do que o normal. Abriu os olhos, sufocada, e deparou-se com a visão do deserto ressequido. Do lado de fora, a areia tomava conta da paisagem. O sol, a pino, escaldava toda forma de vida.
Uma gota de suor escorreu de sua testa. Limpou-se com as costas da mão, sentindo o cansaço e enfado provocados pelo calor. Muito calor. Extremo calor.
Andou arrastando os pés, ainda vestida no pijama, procurando uma sombra ou uma gota de água para aliviar a garganta ressequida. Perdida, zonza, definhando em meio ao deserto calorento, sem sinal de nada que diferenciasse o horizonte.
Ondas de calor que gotejavam o corpo, fazendo-a desidratar. Tentou chorar, tamanho desespero, mas as lágrimas se secavam antes de chegar aos olhos. Sol causticante, pele se queimando e o silêncio do nada.
Tentou encolher-se, esticar-se, caminhar mais rápido, procurar uma saída...o medo era ter a consciência cauterizada e causticada a tal ponto que deixasse de se importar com o incômodo e fazer do calor parte de sua essência.
O vento soprou mais forte, criando uma rajada de areia, que se levantava formando uma coluna, como uma seta, indicando o caminho. Ela levantou a cabeça e apertou os olhos. Vislumbrou, ao longe uma placa, uma direção. Reuniu suas últimas forças e correu para a bússola natural que em sua frente aparecera.
Em meio à poeira e ao cansaço, leu, estarrecida: bem-vinda à sua alma. Apoiou-se ao sinal e despencou ao chão em profunda dor. Agora era hora de morrer. Nova rajada de vento a fez cobrir os olhos e despertar de volta ao seu quarto, em meio à noite, envolta em suor e desespero. Estava na hora de buscar água...que hidratasse mais do que o corpo, mais do que a mente, mas que restaurasse a essência de quem ela era.
(Recomendo a leitura acompanhada pelo fundo musical Estrada, de Carlinhos Veiga: www.myspace.com/carlinhosveiga)

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Losing grips

Perdi o controle quase total da minha vida. Num mar de confusões, de indecisões, eu soltei meus dedos um a um e quase estou pendurada por um último pedaço de unha.
Não sei se o que há abaixo dos meus pés é um abismo ou o paraíso, mas estou a ponto de me deixar levar pela inércia e ver onde esta estrada vai dar.
Eu não tenho planos, metas e objetivos. Não vivo sob minhas imposições de resultados. Não tenho traçado no mapa o roteiro dos meus passos. Não me canso pensando nas possibilidades que a vida poderia me oferecer.
Estou na ladeira, em ponto morto. Soltei os freios e fechei os olhos. Não tenho horizonte e nem procuro pela luz no fim do túnel. Deixei que a apatia se tornasse o indutor dos meus dias. E não me importo.
Estou descansando. Estou flutuando no profundo do não-saber. Estou esperando pra ver onde o tempo vai me levar.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dia de viver


A cama pareceu expulsá-la quando a manhã se fez presente. Abriu os olhos como num susto e pulou de encontro ao guarda-roupas. Muito a fazer naquele dia que mal havia começado, mas cuja agenda já martelava em seu senso de responsabilidade.
Tomou um banho, lavou o cabelo, passou uma loção pelo corpo e tomou um copo d'água. Vestiu a primeira roupa e sentiu-se bem. Olhou no espelho, enquanto aprontava a maquiagem e sorriu ao ver a tranquilidade estampada naquela manhã de quarta-feira.
Simples assim e sem motivo, uma brisa de ansiedade saudável atravessou-lhe o coração e criou uma taquicardia gostosa, de quem aguarda a melhor das notícias.
Nem mesmo o engarrafamento costumeiro - e especialmente neste dia mais complicado - lhe tiraram a sensação de leveza. lavou os olhos da tristeza derradeira e abriu os lábios para uma alegria momentânea que não tinha jeito de passageira.
De igual modo trabalhou com afinco, mas prestou atenção aos detalhes nas pessoas, ao semblante dos amigos, às preocupações alheias. Tudo como resultado da taquicardia apaixonante que a fazia corar com a empatia.
Estava feliz consigo mesma. Feliz com as decisões que tomara, com a vida que levava, com os planos que traçou. Tinha nos olhos o brilho da expectativa de futuro e sorriu todas as vezes que o celular brilhou ao receber novas mensagens de texto.
Era um dia de sorrisos. De lembranças agradáveis. De suspiros e arrepios. Era dia de viver!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Porto só

Com a tristeza estampada no rosto, ela se vestiu para mais um dia de trabalho. olhou ao redor com desolação. A cama por fazer indicava uma noite mal dormida, agitada pelas preocupações que invadiam seu coração e mente.
Escolheu uma roupa mais conservadora, abotoando a camisa até a gola, como que para prender o coração e não deixá-lo saltar pela boca. Olhou-se no espelho, cansada. O empapuçado sob seus olhos denunciavam uma crise de choro recente.
Mas respirou fundo, contou as casas e os botões e, calçando uma sapatilha confortável, dirigiu-se à vida. Subiu a rua sem pressa e com a firmeza de quem cambaleia. Apertou os olhos, tampou-se do sol e respirou mais fundo.
Com a dor incômoda da alma, chegou ao destino, imaginando o que fazer para disfarçar tamanho peso. Clareou o sorriso e conseguiu fingir tranquilidade. Trabalhou com afinco, sem deixar o pensamento divagar pelas terras insólitas da ansiedade. Esqueceu de comer, de conversar, de rir. Esqueceu, inclusive, dos amigos que lhe convidaram para um happy hour. Esqueceu de si mesma e, por um dia, não desviou o olhar para a janela, para a porta e para o dia.
Deu a hora, desligou tudo e voltou pra casa e para seu vazio. Sentiu-se só, como há tempos não sentia. Uma lágrima brilhou no canto do olhar e ela fungou. Abriu o celular e deparou-se com a foto que evitou por todo o dia: fora vítima da saudade. Da saudade e da alegria perdida.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Simples.


Para se ter felicidade não é preciso procurar em muitas coisas ou lugares, brada um anúncio na TV. Só é preciso uma só. A palavra de ordem é: simplifique. Reúna todas as contas numa só, use só uma máquina para ler todos os cartões, tenha um controle remoto universal....simplifique a bagunça sobre a sua mesa, na sua casa, na sua vida.

Manter a vida simples, sem perder o conforto, o luxo e o status. Manter a vida simples e ponto.

O conceito do ter sobre o ser começa a se tornar obsoleto. Ou será que apenas reduziu-se as varáveis de complicações? "Continue tendo muito. Mas economize tempo, encontre tudo o que vc precisa em um só lugar"...

Mas a simplicidade pregada pelos vendedores não extingue a "necessidade" e menos ainda diminui o estresse. O "mal do século" não é mais a depressão - ela o foi no século 20 -, mas é a tensão, a ansiedade em níveis acima do normal, a pressão pelo ter, ser e fazer, todos ao mesmo tempo, em um único lugar: sobre seus ombros.

Como Atlas, o deus grego, temos por castigo carregar o mundo nas costas. Sem descanso, nos forçamos a nos preocupar, estressar e acrescentar, a cada dia, mais peso a nossa bagagem cotidiana.

Ainda aprendo, mas em Deus encontro a resposta para o dilema: "lancem sobre Ele toda Sua ansiedade, por Ele tem cuidado de vocês" I Pedro 5:7. Parece subjetivo e transcendente, mas é real. Confiar em Deus é a resposta para nosso mal.
Ele vai suprir nossas necessidades. Ele vai resolver os problemas. É jogar sobre ele o fardo. É não se preocupar. Ele tem cuidado de nós. E não há porque temer: Ele consegue lidar com todos os detalhes de todas as vidas.
É pensar na suficiência de Deus, mesmo quando fazemos dela insuficiência.
É simplificar a vida. Confiar e ponto.