quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Dia de viver


A cama pareceu expulsá-la quando a manhã se fez presente. Abriu os olhos como num susto e pulou de encontro ao guarda-roupas. Muito a fazer naquele dia que mal havia começado, mas cuja agenda já martelava em seu senso de responsabilidade.
Tomou um banho, lavou o cabelo, passou uma loção pelo corpo e tomou um copo d'água. Vestiu a primeira roupa e sentiu-se bem. Olhou no espelho, enquanto aprontava a maquiagem e sorriu ao ver a tranquilidade estampada naquela manhã de quarta-feira.
Simples assim e sem motivo, uma brisa de ansiedade saudável atravessou-lhe o coração e criou uma taquicardia gostosa, de quem aguarda a melhor das notícias.
Nem mesmo o engarrafamento costumeiro - e especialmente neste dia mais complicado - lhe tiraram a sensação de leveza. lavou os olhos da tristeza derradeira e abriu os lábios para uma alegria momentânea que não tinha jeito de passageira.
De igual modo trabalhou com afinco, mas prestou atenção aos detalhes nas pessoas, ao semblante dos amigos, às preocupações alheias. Tudo como resultado da taquicardia apaixonante que a fazia corar com a empatia.
Estava feliz consigo mesma. Feliz com as decisões que tomara, com a vida que levava, com os planos que traçou. Tinha nos olhos o brilho da expectativa de futuro e sorriu todas as vezes que o celular brilhou ao receber novas mensagens de texto.
Era um dia de sorrisos. De lembranças agradáveis. De suspiros e arrepios. Era dia de viver!

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Porto só

Com a tristeza estampada no rosto, ela se vestiu para mais um dia de trabalho. olhou ao redor com desolação. A cama por fazer indicava uma noite mal dormida, agitada pelas preocupações que invadiam seu coração e mente.
Escolheu uma roupa mais conservadora, abotoando a camisa até a gola, como que para prender o coração e não deixá-lo saltar pela boca. Olhou-se no espelho, cansada. O empapuçado sob seus olhos denunciavam uma crise de choro recente.
Mas respirou fundo, contou as casas e os botões e, calçando uma sapatilha confortável, dirigiu-se à vida. Subiu a rua sem pressa e com a firmeza de quem cambaleia. Apertou os olhos, tampou-se do sol e respirou mais fundo.
Com a dor incômoda da alma, chegou ao destino, imaginando o que fazer para disfarçar tamanho peso. Clareou o sorriso e conseguiu fingir tranquilidade. Trabalhou com afinco, sem deixar o pensamento divagar pelas terras insólitas da ansiedade. Esqueceu de comer, de conversar, de rir. Esqueceu, inclusive, dos amigos que lhe convidaram para um happy hour. Esqueceu de si mesma e, por um dia, não desviou o olhar para a janela, para a porta e para o dia.
Deu a hora, desligou tudo e voltou pra casa e para seu vazio. Sentiu-se só, como há tempos não sentia. Uma lágrima brilhou no canto do olhar e ela fungou. Abriu o celular e deparou-se com a foto que evitou por todo o dia: fora vítima da saudade. Da saudade e da alegria perdida.

quinta-feira, 22 de julho de 2010

Simples.


Para se ter felicidade não é preciso procurar em muitas coisas ou lugares, brada um anúncio na TV. Só é preciso uma só. A palavra de ordem é: simplifique. Reúna todas as contas numa só, use só uma máquina para ler todos os cartões, tenha um controle remoto universal....simplifique a bagunça sobre a sua mesa, na sua casa, na sua vida.

Manter a vida simples, sem perder o conforto, o luxo e o status. Manter a vida simples e ponto.

O conceito do ter sobre o ser começa a se tornar obsoleto. Ou será que apenas reduziu-se as varáveis de complicações? "Continue tendo muito. Mas economize tempo, encontre tudo o que vc precisa em um só lugar"...

Mas a simplicidade pregada pelos vendedores não extingue a "necessidade" e menos ainda diminui o estresse. O "mal do século" não é mais a depressão - ela o foi no século 20 -, mas é a tensão, a ansiedade em níveis acima do normal, a pressão pelo ter, ser e fazer, todos ao mesmo tempo, em um único lugar: sobre seus ombros.

Como Atlas, o deus grego, temos por castigo carregar o mundo nas costas. Sem descanso, nos forçamos a nos preocupar, estressar e acrescentar, a cada dia, mais peso a nossa bagagem cotidiana.

Ainda aprendo, mas em Deus encontro a resposta para o dilema: "lancem sobre Ele toda Sua ansiedade, por Ele tem cuidado de vocês" I Pedro 5:7. Parece subjetivo e transcendente, mas é real. Confiar em Deus é a resposta para nosso mal.
Ele vai suprir nossas necessidades. Ele vai resolver os problemas. É jogar sobre ele o fardo. É não se preocupar. Ele tem cuidado de nós. E não há porque temer: Ele consegue lidar com todos os detalhes de todas as vidas.
É pensar na suficiência de Deus, mesmo quando fazemos dela insuficiência.
É simplificar a vida. Confiar e ponto.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Liberdade


"...Liberdade, essa palavra
que o sonho humano alimenta
que não há ninguém que explique
e ninguém que não entenda..."


Então começou a Copa do Mundo. Para todos os lados, vozes e vuvuzelas ecoam o mesmo som: buscamos a glória, o nosso nome escrito na história.

Estão todos em busca da mesma coisa, que é a vitória sobre o outro. De alguma forma pretendem comprovar sua superioridade, ainda que seja somente em torno de um jogo, uma competição, na qual um monte de homens corre atrás de uma bola.

E enquanto isso, ouço na televisão as repórteres comentando a abertura dos jogos e os primeiros minutos da primeira partida na África do Sul.

O comentário me emociona: uma moça sulafricana diz que ter a Copa em seu país é como se fosse um milagre: "Meu pai lutou para que fôssemos livres e hoje nós podemos viver este momento".

Engasgo.

Não sabemos o quanto custa sermos livres. Fazemos pouco caso do nosso privilégio de viver em um país que nos permite ir e vir, escolher nossos representantes políticos, dizer sim ou não, assistir este ou aquele programa de televisão, aceitar ou não uma proposta de emprego...Vivemos uma liberdade que se confunde com libertinagem, esquecendo que para ser livre é preciso ter responsabilidade.

E a África celebra hoje, acima de tudo, não apenas o espetáculo do futebol mundial, mas a oportunidade de mostrar ao mundo o que fizeram com esta tal liberdade.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Devaneio

Você apareceu em meus sonhos. Uma única vez. Numa penumbra realista e surreal, me olhou nos olhos e disse palavras que me assustaram ao ponto de me despertarem.
Não o vi mais, desde então, nem em minha mente, nem nos meus dias. No entanto, a proposta ecoou solene em meu consciente e sua vivacidade ainda me assusta: uma mudança de vida que tenho medo de que se torne real.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Queda livre

Postei os dois pés sobre o parapeito, tentando me equilibrar. Braços abertos, coração acelerado e olhos semi-cerrados. era mesmo necessário passar por este treinamento? Parecia que sim. Respirei fundo e olhei para baixo.

90 metros me separavam do chão. Ali, de cima do prédio, contemplei o horizonte. O céu estava acinzentado por causa do tempo seco que já dava seus sinais. Dali, tudo parecia tão pequeno. Os carros, as pessoas e a vida.

Uma brisa leve começou a soprar e senti meu corpo tremer com o toque suave do vento. O medo se apoderou de mim e travei todos os músculos.

De repente, minha própria voz ecoou em meus ouvidos, me fazendo arregalar os olhos. A lembrança de minha palavras, com tanta autoridade, com tanta propriedade me fizeram questionar até que ponto o meu incentivo e afirmação eram reais para mim mesma.

Um milagre viria ao meu socorro? Uma mão poderosa me sustentaria? Bastaria uma palavra dEle para que tudo se fizesse novo? Eu cria que sim. Mas vivia o "sim"? Olhei novamente para baixo. Respirei fundo novamente. Mexi os pés, me preparando melhor. Firmei os braços abertos. Com um pequeno sorriso confirmei minhas crenças: saltei no infinito desconhecido e livre do não-saber do futuro e deixei que Deus fosse minha corda e paraquedas, numa queda livre que correspondia não à expectativa alheia a meu respeito, mas à minha própria fé.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Wonderland

"- Since I got here, everyone tell me who I should be and what I should do...
- But you must do it. If you get away from the path...
- I'll do my path now".

A chave está sobre a mesa. Das várias portas, apenas uma se abriria ao encaixe perfeito da fechadura. Do lado de lá, as escolhas seriam consequência da primeira delas: não desistir de alcançar a chave e ter o tamanho exato para passar pela minúscula porta que levaria ao desconhecido mundo que, até então, era pintado de sonho.

Como Alice, me deparo com as portas em um longo corredor. Minhas chances estão estampadas não em uma abóbada fechada e enclausurada por uma uma única opção de saída, mas desfilam diante de mim como inúmeros invólucros fechados. O primeiro passo faz ranger o chão. E a temperatura oscilante faz a madeira tilintar.

Olho para os lados, para cima e ao redor de mim. Em meio a penumbra vejo meus passos inseguros caminhando dentro de sapatos brancos de verniz. Um ruído qualquer ecoa no salão. Tento conter minha ofegante respiração, que se encontra com seu maior medo: o desconhecido.

De repente, uma voz ressoa familiar... "Aproveitem, estúpidos, enquanto o futuro ainda é maior do que passado".

"- You have lost your muchless"...

É hora de escolher o caminho. Ao invés de deixar que me digam quem devo ser ou o que devo fazer, eu digo: desta vez, eu farei meu próprio caminho. A decisão de continuar, de abrir a porta de conhecer o irreconhecível ou de simplesmente sentar e chorar é minha e de mais ninguém. E o que me difere de Alice? Seja qual escolha fizer, no final, não estarei diante do perigo sozinha.