segunda-feira, 10 de maio de 2010

Queda livre

Postei os dois pés sobre o parapeito, tentando me equilibrar. Braços abertos, coração acelerado e olhos semi-cerrados. era mesmo necessário passar por este treinamento? Parecia que sim. Respirei fundo e olhei para baixo.

90 metros me separavam do chão. Ali, de cima do prédio, contemplei o horizonte. O céu estava acinzentado por causa do tempo seco que já dava seus sinais. Dali, tudo parecia tão pequeno. Os carros, as pessoas e a vida.

Uma brisa leve começou a soprar e senti meu corpo tremer com o toque suave do vento. O medo se apoderou de mim e travei todos os músculos.

De repente, minha própria voz ecoou em meus ouvidos, me fazendo arregalar os olhos. A lembrança de minha palavras, com tanta autoridade, com tanta propriedade me fizeram questionar até que ponto o meu incentivo e afirmação eram reais para mim mesma.

Um milagre viria ao meu socorro? Uma mão poderosa me sustentaria? Bastaria uma palavra dEle para que tudo se fizesse novo? Eu cria que sim. Mas vivia o "sim"? Olhei novamente para baixo. Respirei fundo novamente. Mexi os pés, me preparando melhor. Firmei os braços abertos. Com um pequeno sorriso confirmei minhas crenças: saltei no infinito desconhecido e livre do não-saber do futuro e deixei que Deus fosse minha corda e paraquedas, numa queda livre que correspondia não à expectativa alheia a meu respeito, mas à minha própria fé.

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Wonderland

"- Since I got here, everyone tell me who I should be and what I should do...
- But you must do it. If you get away from the path...
- I'll do my path now".

A chave está sobre a mesa. Das várias portas, apenas uma se abriria ao encaixe perfeito da fechadura. Do lado de lá, as escolhas seriam consequência da primeira delas: não desistir de alcançar a chave e ter o tamanho exato para passar pela minúscula porta que levaria ao desconhecido mundo que, até então, era pintado de sonho.

Como Alice, me deparo com as portas em um longo corredor. Minhas chances estão estampadas não em uma abóbada fechada e enclausurada por uma uma única opção de saída, mas desfilam diante de mim como inúmeros invólucros fechados. O primeiro passo faz ranger o chão. E a temperatura oscilante faz a madeira tilintar.

Olho para os lados, para cima e ao redor de mim. Em meio a penumbra vejo meus passos inseguros caminhando dentro de sapatos brancos de verniz. Um ruído qualquer ecoa no salão. Tento conter minha ofegante respiração, que se encontra com seu maior medo: o desconhecido.

De repente, uma voz ressoa familiar... "Aproveitem, estúpidos, enquanto o futuro ainda é maior do que passado".

"- You have lost your muchless"...

É hora de escolher o caminho. Ao invés de deixar que me digam quem devo ser ou o que devo fazer, eu digo: desta vez, eu farei meu próprio caminho. A decisão de continuar, de abrir a porta de conhecer o irreconhecível ou de simplesmente sentar e chorar é minha e de mais ninguém. E o que me difere de Alice? Seja qual escolha fizer, no final, não estarei diante do perigo sozinha.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Amarrando as pontas da vida



Desde criança, minha mãe sempre nos ensinou a "amarrar as pontas" do nosso serviço. Isso significava que, ao terminar de lavar o banheiro, por exemplo, o sabão, balde, bucha e tudo o mais que tivéssemos usado na tarefa, deveriam voltar para o lugar que pertencia, isto é, a área de serviço. Todas as vezes que deixávamos os utensílios esparramados, lá vinha minha mãe gritando: "menino! Vem amarrar as pontas do seu serviço!"


Esses dias, essa expressão não sai da minha cabeça. Estou decidida a amarrar as pontas da vida. Tem trabalhos em suspenso, tem ideias não concluídas, tem relacionamentos embaçados, tem vontades não cumpridas. E está na hora de pôr as coisas no lugar.


Não só porque nunca se sabe quando a vida dará uma guinada de 180º, mas também para dar espaço para que novas oportunidades cheguem. Sem ter as barreiras do inacabado me cercando, posso ter a flexibilidade e a mobilidade do talvez e do pode ser. E eu gosto dessas cartas.

Estou amarrando as pontas da minha vida pra poder caminhar pra frente em passos mais largos. Encontrar respostas e decidir o que, afinal, quero fazer daqui pra frente. Saber qual é o próximo passo é sempre um mistério. Mas, se eu canto "o vento sopra, só ele sabe para aonde vai. Quero estar no vento e ser conduzido pela Sua vontade", não posso estar presa a detalhes de uma limpeza concluída, mas não reorganizada.


Estou sonhando com uma nova caderneta, com folhas limpas, páginas em branco, tela escovada, um recomeço. Estou sonhando com uma nova década que se aproxima, com as realizações prometidas, com os desafios que se descortinam e com as possibilidades de ser. E para isto, neste exato momento, estou amarrando as pontas da vida.

E se entre os baldes, escovas, sabões e buchas que detenho ao meu redor, você tem parte, te estendo a mão e convido a me ajudar a limpar meu ambiente que, na sequência, te ajudo a limpar o seu. E vamos abrir as portas de uma vida organizada a um futuro incerto, mas que será precioso.

terça-feira, 2 de março de 2010

No topo da montanha

Acelerado, o coração pulsou. Era mais um dia ensolarado, de um calor seco que nem mesmo a brisa mais cândida conseguiria aplacar. Ainda assim, as mãos suavam frias e nas pontas dos dedos ainda se sentir o vibrar emocionado das lágrimas recolhidas.

Num dia nublado, como em um céu paulista, a alma amanheceu dormente. Apática a qualquer sentimento ou situação. Deu de ombros aos sonhos difícies e longíquos e estagnou-se à ideia de que tanto fazia estar ali ou não.

Os olhos marejados se fecharam, amargurados, em um dia de chuva forte. Os relâmpagos brilhavam lá fora, sob o rugido dos trovões. Choravam o moribundo coração que não se reconhecia mais, envolto em apatia e frieza.

Como um calor sufocante, o sorriso apareceu. Nasceu assim, de uma ideia inesperada. De uma possibilidade desejada. De uma figura imaginada, mas que nunca apresentou o frescor da realidade estampada.
Nasceu assim, da vontade de liberdade e da conquista do almejado segredo: superar a sobrevivência e, em plenitude, viver novamente.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Meu respirar


Faltou ar. Desesperadamente olhei para cima, em busca do precioso oxigênio, e me deparei como céu azul, tranquilo. Acima de mim, as garças voavam, piando e procurando alimento. O sol forte brilhou em meus olhos me fazendo franzir a testa. E nesta contemplação, me esqueci de respirar. Envolta em líquido luminescente, engasgada pela ausência da mistura vital, olhei aos lados e só contemplei o horizonte vazio.

Fechada, encalacrada, enrolada, vedada, selada. No vácuo vazio da existência sem ar. levantei os braços em agonia profunda e desespero crescente. Sobre minha cabeça se estendeu o tapete duro de gelo de uma estação desconhecida. Esmurrei a parede fria, que me impedia de voltar à vida, com a esperança ali fora, a voar com as garças.

Mas o esforço contido pela substância gelatinosa, me fez perder a força e o impacto não provocou mais do que uma micro rachadura no invólucro. Se as lágrimas escorressem pelos olhos, eu choraria.

O tempo, que de 5 segundos foi transformado em eternidade, passou a ser inimigo da minha sobrevivência. Senti que me movia, mas sem ter levantado o pé. Carregada dentro da prisão de gelo. A micro rachadura, por fim, riscou-se em arranhão profundo. Com o mover da caixa, a fenda tornou-se cada vez mais longa. Debati-me.

O sol ainda brilhava, desafiador. O vento demonstrava sua presença com forte golfadas de ar, balançando as árvores nas quais se escondiam as garças. A maresia invadia o receptáculo, trazendo o gosto de mar aos meus sentidos.

Balbuciei palavras perdidas, desenhadas pela ilusão de um novo respirar. Até que a rachadura tornou-se em espaço. Cabia-me um dedo entre a fresta. Com o pouco de força que restava, segurei as bordas com a ponta do indicador. Não era gelo, mas material transparente. A fenda cortava-me as digitais.

Com o sangue escorrendo pelos braços, alcancei a liberdade de uma mão e depois de outra. A chance de sentir o ar atravessando meus dedos me deu novo vigor para enfrentar a parede não mais tão sólida que me prendia. Com a cabeça zonza pela falta de oxigênio e a perda de sangue, empurrei meu corpo contra o vão que havia criado. Com um só golpe, livrei-me de vez da cadeia luminescente. Sentei-me, cansada, meio corpo ainda dentro da caixa. Passei a mão desesperada no rosto, tentando livrar as vias respiratórias do líquido gelatinoso.

Respirei ofegante. E por longo tempo nada fiz a não ser deixar entrar e sair o ar. Limpei os pulmões do gás carbônico. Tossi longamente, expurgando toda minha própria toxina. Até que levantei os olhos e não reconheci meu destino. O mar morria na praia e nada mais se ouvia além de seu murmúrio. E foi então que tudo foi percebido: saía de um pesadelo e invadia meu próximo sonho colorido.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Boneca de pano


Num dia 13 de janeiro, de um novo ano, o desejo de tranformação foi manifestado. Há uma semana ele vinha tomando forma e invadindo os pensamentos da boneca de pano caída no canto do quarto. Sem muita vida, nem muito enchimento, a boneca olhava a parede por um longo período do dia, imaginando se as cores que um dia seus olhos captaram ainda existiam.

Até que pela parede branca se abriu uma pequena rachadura. Do buraquinho que se formou, uma formiga saiu. Depois outra e mais outra e mais outra. A boneca as encarou com curiosidade. E por um instante pretendeu mover os olhos na direção que as formigas caminhavam, tão rapidamente e com tanta segurança.
Sabiam elas onde estavam indo? E por que estavam indo? Por que abandonaram o vão da rachadura? Por que, justo agora, resolveram se mover?

A boneca viu que o número de formigas aumentava a cada instante e logo havia um verdadeiro trânsito delas à sua frente. Mão e contra-mão, as formigas subiam e desciam pelo vão. Ficar quietas não fazia parte de sua rotina. E isso despertou o interesse da boneca.

Um tanto sem forças para se erguer do canto da parede, aquele pedacinho de pano com enchimento foi movida pela vontade de olhar para cima, de procurar outras diversões, de descobrir o mundo em que as formigas passeavam.

Não era fácil. Depois de tanto tempo sentada frouxamente no canto da parede, as pernas não tinham forças para se mover. A cabeça, quase grudada aos ombros, custava para esticar uma fibra. Se tivesse glândulas, a boneca suaria.
A primeira tentativa foi piscar os olhos e acordar do marasmo. Com algum esforço ela piscou. Sorriu e piscou de novo. Depois, girou a cabeça. Girou e olhou em todas as direções. Depois, com a vontade crescendo e a força aumentando, se impulsionou e ergueu o corpinho flácido e quase sem espuma. Se equilibrou nas pernas e deu o primeiro passo.

"Vitória!", pensou, feliz, a bonequinha. Deu outro passo, dominando o desequilíbrio. Firmou a direção e explorou cada canto do quarto. Olhou as paredes e descobriu formigas, aranhas, lagartixas e escorpiões.
Descobriu uma casa que a ninguém mais pertencia. Descobriu que fora esquecida junto ao lixo abandonado. Mas com o ânimo revigorado pela vitória da independência, escalou as caixas perto da janela, escapou pelo buraco aberto no vidro e saiu pelo jardim, pronta a conhecer o mundo que, até então, só existia na imaginação.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Pretending...


Abri os olhos e me deparei comigo mesma. Olhei o reflexo estampado no rosto cansado impresso no espelho e não reconheci aqueles olhos sem cor. De onde vieram aquelas rugas? Por que a profundidade daquelas olheiras? Onde estava a esperança que antes neles se refletia?

Perdi algum tempo naquele contemplar, mas sem encarar com firmeza aquele esquálido fantasma. Sobrevivente de 2009. Foi o que pensei. A dureza dos problemas, às vezes insanos e às vezes menos problemáticos do que de outros, me transformaram neste ser desfigurado, irreconhecível e desprezível.

Não conhecia mais as curvas do meu próprio rosto e desenhei na memória o sorriso que antes encantava e iluminava o meu ser. Não era eu a mesma de janeiro passado. Não era meu semblante de alguém que queria viver.

Reli os textos pra ver se me lembrava de mim. Me investi em uma pesquisa externa pra descobrir onde meu verdadeiro "eu" havia desaparecido. Sem respostas, me entreguei ao cansaço da perda própria e me esqueci, enterrada no abismo da superficialidade mal-resolvida.

Não quis - como ainda não quero - ir atrás de mim. Não tenho forças para sair do escuro e deixar que a luz me veja. A minha cama armei no profundo abismo, me escondendo de mim e de você.

Estampei um sorriso amarelo, apertei as amarras da máscara mentirosa e chamei de "eu". Apresentei a versão mais vulgar e insana de mim. Deixei que pensassem que meu nome era grandioso e competente. Deixei que minha reputação se atrelasse a um impostor interno, maquiavélico, criado pelo meu desgosto.

E assim, en passant, todos se orgulhavam de quem me fiz. Todos me aceitavam com louvores. Todos me olhavam com admiração. Todos contavam comigo para garantir seu sucesso. Todos menos eu. A única que, de fato, conhecia as agruras e podridões que haviam transformado e deformado minha face, frente à orgia de mentiras em que havia sucumbido.