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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Bambam

A vida pulsando em meio às horas, aos dias, aos fatos. A vida crescendo dentro do invólucro quente e aconcehgante que a envolve. A vida que muda outras vidas, que transforma expectativas, esperanças e sonhos. A vida que se manteve firme e perdurou com qualidade e perfeição.

A vida na batida do coração.

Uma nova vida. Assim, de atropelos, sem muito planejamento, sem muito apego. A vida em uma notícia inesperada, misturada à dor, à alegria, ao amor e ao desalento. A vida de todos os momentos.

A vida que traz sono, para aproveitar as noites que serão mal dormidas; que traz fome, para aliviar os dias em que o tempo não permitirá a saciedade; que traz sorriso, para os anos de lamento e preocupação.

Vida. Vida que está trazendo consigo sorrisos, carinhos, lágrimas de contentamento. Vida que significa herança, pedaço de nós, parte de nós. Vida que já provoca mudança nas vidas de quem nem conhece, que já causa estranheza aos mais apegados, que força a tomada de decisões a tanto esperadas.

Vida que vai preencher nossos dias e que vamos amar incondicionalmente. Que nos transformará em bobos e babões, em pais, avós e tias! A vida do pequenino que lá dentro nem pode imaginar o quanto já estamos ansiosos para vê-lo aqui fora, cheio de vida!

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Pretending...


Abri os olhos e me deparei comigo mesma. Olhei o reflexo estampado no rosto cansado impresso no espelho e não reconheci aqueles olhos sem cor. De onde vieram aquelas rugas? Por que a profundidade daquelas olheiras? Onde estava a esperança que antes neles se refletia?

Perdi algum tempo naquele contemplar, mas sem encarar com firmeza aquele esquálido fantasma. Sobrevivente de 2009. Foi o que pensei. A dureza dos problemas, às vezes insanos e às vezes menos problemáticos do que de outros, me transformaram neste ser desfigurado, irreconhecível e desprezível.

Não conhecia mais as curvas do meu próprio rosto e desenhei na memória o sorriso que antes encantava e iluminava o meu ser. Não era eu a mesma de janeiro passado. Não era meu semblante de alguém que queria viver.

Reli os textos pra ver se me lembrava de mim. Me investi em uma pesquisa externa pra descobrir onde meu verdadeiro "eu" havia desaparecido. Sem respostas, me entreguei ao cansaço da perda própria e me esqueci, enterrada no abismo da superficialidade mal-resolvida.

Não quis - como ainda não quero - ir atrás de mim. Não tenho forças para sair do escuro e deixar que a luz me veja. A minha cama armei no profundo abismo, me escondendo de mim e de você.

Estampei um sorriso amarelo, apertei as amarras da máscara mentirosa e chamei de "eu". Apresentei a versão mais vulgar e insana de mim. Deixei que pensassem que meu nome era grandioso e competente. Deixei que minha reputação se atrelasse a um impostor interno, maquiavélico, criado pelo meu desgosto.

E assim, en passant, todos se orgulhavam de quem me fiz. Todos me aceitavam com louvores. Todos me olhavam com admiração. Todos contavam comigo para garantir seu sucesso. Todos menos eu. A única que, de fato, conhecia as agruras e podridões que haviam transformado e deformado minha face, frente à orgia de mentiras em que havia sucumbido.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Senzala

A vida não é como um filme. O final feliz pode ser bem diferente do enredo imaginado. O dia hoje foi uma comprovação disso. Internamente, duelei por horas comigo mesma.

A descoberta do mau feito foi um lampejo de luz. Vi o que não queria enxergar. E por anos. Briguei até que as lágrimas romperam. Estou moída, quebrada, como se tivesse tomado uma surra, como se tivesse terminado namoro, como se tivesse descoberto uma traição. 

O pesar é tamanho! E não há a quem culpar a não ser a mim mesma. Virei o switch, mudei para 110V. De pilha alcalina, passei a bateria viciada. E não sei o que fazer. O socorro veio do lugar mais improvável (os prováveis estavam por demais ocupados com seus próprios interesses e mágoas).

Palavras sábias de quem se esperava imaturidade. Compaixão de quem se esperava desprezo. Atenção de quem se esperava descaso. Apoio de quem não se esperava nada.

A auto-reflexão levou a descobertas amargas. Mas o amargor foi adocicado pela presença do inesperado.

Um monte de blablabla que não vai trazer nenhuma solução.


domingo, 19 de outubro de 2008

De volta à estrada de tijolos amarelos

Esta é uma semana crucial. É minha última semana antes que mais um ciclo de vida se feche. E algumas coisas ainda precisam ser ditas. Hoje, exatamente, nada me aflige. As coisas que estão para acontecer simplesmente vão acontecer.

O caminho que eu tracei neste último ano de vida foi completamente diferente de todas as estradas que eu já tomei. Talvez, o que eu tenha feito foi adotar um ano quase sabático - "quase", porque ainda me parece impossível parar completamente -, onde, ao invés de correr pelo caminho afora, eu sentei ao lado da estrada poeirenta e esperei o sol se pôr.

Fora a poesia, o que fiz pode ter me desestabilizado um pouco, principalmente no início. Mas, com o passar dos dias, fui retomando o equilíbrio e descobrindo que eu posso, sim, reduzir o ritmo e conseguir relaxar sem parar de produzir.

Os amigos, mais uma vez, foram essenciais neste momento. Não apenas para me ajudar durante as crises de abstinência do vício alucinante do trabalho, mas também para me fazer rir, brincar, descobrir segredos de mim mesma.

Como eu disse a um precioso amigo longíquo esta semana, eu agora sei quem eu sou e o que eu quero. Talvez essa certeza esteja mais no discurso do que na percepção. Mas já é um alívio poder ter este tipo de constatação, mesmo que, num primeiro momento, apenas teoricamente.

Estou tranqüila. Essa é a verdade. E feliz porque o caminho que eu escolhi seguir finalmente parece ser a estrada certa, que vai me tirar do círculo vicioso e vai me levar direto para o início da minha vida, a vida pra valer. =) 

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Receita para uma vida


Do que a vida é feita? De dias preguiçosos e ocupados, de agenda lotada e vazia, de horas felizes e frustrantes, de expectativas positivas e negativas, de problemas e soluções, de sonhos e desesperança.

Não só de momentos individuais e de questões particulares, a vida também reúne as situações em que somos meros coadjuvantes, os "melhores amigos" dos personagens principais, os conselheiros não consultados, os ombros presentes, os ouvidos dispostos, os preocupados pelo outro. 
É de se assustar que ainda haja a oportunidade de sermos menos egoístas e nos ocuparmos com quem chamamos "amigos". É mais tenebroso ainda sentir nossa dor, ter nossos próprios problemas e nada disso importar, em primeiro plano, porque alguém que amamos se encontra em situação mais apertada.
Que graça ver o sorriso no rosto da amiga que tem suas notas afinadas e ouve sua lírica sendo entoada com tanta melodia; que felicidade sentar-me à mesa junto a queridos mais queridos do que imaginam pra rir de coisa alguma e brincar com o nada; que incômodo ler as linhas angustiadas da estrangeira brasileira e perceber sua tristeza e não poder mostrá-la uma face da moeda que ela não viu e que é tão tranqüila; que aperto oferecer ajuda, horas, disposição, orações e tentativas de ânimo para quem está com a doença a se aproximar de sua casa e não ter nada mais do que o ombro como solução imediata; que conforto poder acolher um amigo em abraço, gastar horas sem dizer nada e só deixar que um cafuné fale tudo o que se quer ouvir....
A vida é feita de um dia após o outro. De todas as obrigações a que somos impostos. Mas também desses pequenos momentos preciosos, quando descobrimos que a vida só é vida porque temos o outro e várias vidas para compartilhar. 

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Ajustando o foco

Na minha parede há um pequeno cartaz feito à mão, que fiz durante uma noite insone de trabalho, e que diz "Mantenha seu foco". Mas o lembrete vai muito além das minhas responsabilidades diárias. Ele me diz para pôr os meus olhos no autor e consumador da minha fé, no meu Pai, que pode tudo quando eu não posso mais. 

Mas, algumas vezes, eu passo agir como um amigo, de quem tive notícia hoje, que saiu de casa, deixou uma dívida de quase mil dólares com os pais e foi morar com uma mulher que ele conheceu há menos de três semanas pela internet - sem esquecer o detalhe de que ela nunca foi casada, mas tem quatro filhos. E quando isto acontece, me sinto muito independente e passo a olhar para as coisas que quero, as situações que controlo e os desejos do meu coração. 

Há algumas semanas, tive o privilégio de ouvir uma menininha de oito anos cantando. Ela, diante da platéia desconhecida de adultos, olhou para o moço com violão que a acompanhava, apenas uma vez. Depois, fixou seus olhos em seu pai, sentado na beira da cadeira, na quarta fileira, que balbuciava as palavras da música junto com ela. Em nenhum momento ela fechou os olhos, olhou para outro lado ou pareceu perdida. Ela olhava para seu pai e, enquanto fez isso, cantou toda a música, em inglês e português, sem tremer nenhuma vez.

E é assim que devo agir. A metáfora é verdadeira. A Bíblia nos diz para não desviar nem para a esquerda, nem para a direita. E quando tiramos nossos olhos de Deus, vagamos por todas as direções sem encontrar um rumo certo e ainda levamos, "de presente", quatro filhos, que não são nossos, para criar.

Mas quando nos espelhamos nAquele que nos ama com amor incondicional, fitamos nosso Pai, sentimos a segurança de cantar a música inteira até o fim. E é isto que quero me lembrar esta noite. De parar de olhar para as circusntâncias, para o meu medo, para o meu umbigo e olhar para o meu Pai. E seguir as notas que Ele está cantando, na tentativa de me guiar pela melodia correta.
 

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

You (all of you) are the grace of my life!

Madrugada a dentro e eu pensando na vida. Há um silêncio na casa, que só é interrompido pelo som dos meus dedos no teclado. Ainda há muito o que escrever. Ainda há muitas análises a fazer. Ainda há muito para se ponderar.

O sono vem chegando lentamente. Como um algoz pronto a me torturar com horas de descanso e sonhos infrutíferos. E rio da minha constatação. 

Tem chá quente na garrafa esperando que eu dê um gole. E a luz do abajour parece convidativa para mais uma reflexão. Amigos, amigos....poucos minutos de conversa e muitos risos depois, me descubro apaixonada pela presença de tais companheiros.

Não é possível fugir das obrigações e do martírio dos dias noticiosos. Mas esses momentos, tão preciosos, valem por toda a vida. 

Ao redor daquela mesa, qualquer assunto é válido. Desde a bobeira mais insólita até a informação mais séria. E, mesmo assim, uma palavra ambígüa é suficiente para nos fazer voltar a gargalhar.

Enquanto tudo ao meu redor está envolto em silêncio, na minha mente o barulho é constante: é som de dia bom, de descanso de olhos abertos, de mensagens nas entrelinhas de um sorriso, de carinho pela amiga que ficará fora, de saudade das poucas horas de distância, de segredos que guardamos uns dos outros e que fazem de nós a melhor das irmandades! 

terça-feira, 15 de julho de 2008

Celebração da simplicidade


Se você vier me visitar, não espere que eu te leve para conhecer a casa. Não é que eu seja mal educada e não saiba receber as pessoas. Não, sr. Mas, se levá-lo para o tour, obrigatoriamente terei de abrir a porta do quarto e você há de pensar que eu estive em guerra. 

Coleções de livros e revistas estão espalhadas pelo chão, roupas amontoadas num canto e a escrivaninha coberta de papéis, filmes, mais livros e mais revistas. Não, não estou em guerra. Bem, talvez esteja. Mas é contra mim mesma. Contra minha mesmice e comodismo. Contra minha preguiça e indisciplina. Estou mudando o quarto de lugar para poder começar tudo de novo.


Quebrar a rotina não é algo que se faz do dia para a noite. Leva algum tempo para você se acostumar ao novo modelo. Mas leva mais tempo ainda tirar tudo do lugar, limpar os cantinhos e reorganizar. Nessa brincadeira, encontrei antigos diários - com declarações assustadoras! - pilhas de material de estudo sobre trabalho infantil e terceiro setor, panfletos de missões, brinquedos que trouxe dos Estados Unidos e muito lixo.

Coisas que vamos guardando para um dia....quem sabe....usar ou aproveitar. Abri um plástico e joguei tudo fora. Vou usar agora? Não? Então, com licença que preciso de espaço. Espaço para pôr novas coisas que também serão guardadas por um tempo, ou até a próxima reciclagem de ambiente. O alvo, no entanto, é alcançar a simplicidade. Ter pouco agora para juntar mais no decorrer dos anos. 

Costumo dizer que a situação do meu quarto e do meu carro demonstram como está a situação do meu interior. E você se engana se acha que está uma completa bagunça e confusão em mim. Não. Este monte de coisas espalhadas no chão é só um aviso de que estou me repensando, me recriando e me limpando do velho para deixar o novo acontecer.

domingo, 13 de julho de 2008

Se possível, mantenha a paz com todos

Resposta a mim mesma: o que se busca? Paz ou mais guerra? Se é paz, vá atrás. Sempre vale a pena ser agente pacificador. Se é guerra, respire mais um pouco, engula suas lamúrias e abafe sentimentos.

Uma lembrança, apenas: seu nome - "Lenir"- é um verbo que significa "apaziguar", "suavizar". Como diz sua grande heroína, mais conhecida como "mamãe", lembre de quem você é! 

E no mais, que a PAZ de Cristo seja o árbitro em seu coração. 
;)

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Sacodindo a poeira

Às favas com esse pessimismo que me rodeia! Há semanas que não dou um sorriso honesto! De que adianta tantas coisas boas acontecendo se só as ruins é que me marcam?! Não, não, não! Chega dessa lamúria!

Não sei se pelo exercício que fizemos de só agradecer a Deus por tudo, durante dez minutos, ou se pela satisfação que senti ao acordar esta manhã, o fato é que desisti de ser triste. De lamentar, de reclamar, de só enxergar o que dói.

Hoje, eu vou vestir uma roupa fresca, correr em volta do parque, respirar novos ares, trocar meu celular (que é para as pessoas me ouvirem),  trabalhar com vontade, investir em mim, visitar amigos, me preparar pra o final de semana, cumprir minhas promessas.

Hoje eu vou olhar para a vida com mais entusiasmo! Deixar que os problemas se resolvam ao seu tempo, pagar as contas adiantadas, me livrar dos aborrecimentos, ler o manual do computador e parar de passar raiva com ele. 

Hoje. Hoje. Hoje! Que a alegria seja contagiante, o entusiasmo envolvente e a vontade de viver melhor realidade! E o exercício eu indico: tire, todos os dias, dez minutos para a agradecer a Deus simplesmente porque. Ponto. =D 

quarta-feira, 2 de julho de 2008

As coisas que não contamos

Tentei fugir, sabe, do tema de fortes e castelos. Mas me parece que fomos muito felizes quando começamos a discutir este assunto, no ano passado. Vez por outra, cá está ele de novo. Hoje é um dia para se pensar novamente no assunto.

Estava eu assistindo Grey's Anatomy ontem e, como quase todas as vezes que assisto ao seriado, estavam falando sobre guardar segredos até ao ponto de não se aguentar mais. E eis que me vejo na situação descrita. As coisas que não dizemos, que não contamos, deveríamos não contar a ninguém. É isso o que vem a ser um segredo. Mas não. Nós, como bons seres humanos, adoramos fustigar a curiosidade alheia e envolver o máximo de pessoas em nossas conversas.

Chamo isso de fofoca pessoal. Eu já fui vítima de mim mesma e sei que você também já foi vítima de sua própria língua. Como isso acontece? Amigos, amigos, amigos.

E onde entram castelos e fortes? Exatamente aqui. Vou levar um forte para a viagem, por favor. Hoje, minha preocupação não é que os outros me firam, mas que eu acabe ferindo alguém. Sei segredos de mais de todo mundo. É possível ter vários amigos e tomar partido de todos? É possível seguir o "código da amizade" e render sua solidariedade incondicional?

Estou encurralada pelo segredo alheio. E pelos meus próprios. Não julgo os amigos que preferem não falar. Por favor, peço, não falem. Não me envolvam em suas mazelas. Não me coloquem para escolher um lado do tabuleiro. 

A amizade eu mantenho e é sincero quando ofereço o ombro e os ouvidos. Mas por hoje, somente, eu peço: me deixem só no meu forte/castelo. Há segredos que o meu umbigo ainda não terminou de contar.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Ensaio sobre o fim

Havia um riacho correndo atrás da casa. O riacho crescia até virar um ribeirão, escondido entre a pastagem da fazenda. Me alertaram de que no curso do riacho havia uma sucuri, que deslizava silenciosa na superfície da água, até ficar completamente imóvel e imperceptível às suas presas. A sucuri estava matando o rebanho e a pastagem estava ficando abandonada.
Na casa da fazenda mora um casal de velhinhos que não consegue mais cuidar de tudo sozinho. O engenho parou de funcionar, a cana não é mais moída, o gado está se perdendo e a casa se enchendo de poeira, teias de aranhas - com suas respectivas aranhas -, e outros insetos que fariam qualquer indivíduo da cidade pular e gritar. Mas não eles. Para eles, é normal ter uma sucuri no quintal de casa e insetos como companhia.
Naquela noite, a família que os visitava se reuniu na varanda depois do jantar. Desligaram a luz que estava conectada à bateria do carro - a rede elétrica parara a 250 km da fazenda. Coisas que a politicagem e a época de campanha fazem no interior do Tocantins - e, estupefatos, olharam os milhões de estrelas que apareceram no céu. Constelações, pedaços visíveis da Via Lactea, pontinhos quase apagados no céu escuro. Uma estrela cadente passou e todos sorriram entusiasmados.
Coisa rara de se ver na cidade é um céu estrelado. As luzes criadas pela civilização ofuscam a luz natural do espaço. Ao longe, uma arara voou e, "gritando", fez o cachorro latir, os vaga-lumes sumirem, mas não mudou obrilho que vinha do alto. O silêncio que se seguiu, um incômodo nas grandes cidades, foi apreciado por todos. E a brisa leve soprou com um cheiro de saudade.
Os velhinhos vão mudar para a cidade e vão deixar toda uma vida para trás. Vão em busca de segurança, conforto e cuidado que eles precisam ter no final da vida. Ele põe a mão sobre a porteira e se contém para não chorar - esses dias ele tem estado bem mais emotivo. E, com os olhos lacrimejando, abre seu sorriso e declara esperançoso: "Deus vai ajudar nóis, né?".
A casa já está comprada, a fazenda ainda não foi vendida. Mas até agosto eles mudam, garante ele. Ela olha desconsolada para o quintal por varrer. O porco está solto e briga com o cachorro pelas sobras do almoço. Tem uma sucuri no riacho atrás da casa, me avisaram. Mas nada disso parece importar muito. A falta maior vai ser daquele céu estrelado, com tantos pontos luminosos que na cidade não se vê. E pensar que muitos ali nem existem mais....e o casal sequer vai poder perceber que o brilho das estrelas mudou.

terça-feira, 8 de abril de 2008

Temperando a vida, com Lenir Camimura

Que difícil lição tiramos da vida: o relacionar com o outro pode ser uma verdadeira armadilha...ou um prazer inconfundível. Nem oito e nem oitenta, nem tanto ao mar, nem tanto à praia. Um tanto de flexibilidade e tudo se ajeita. Ajeita?
Tenho pensado se a celebração da simplicidade se aplica aos relacionamentos. Sujeitos complexos que interagem não podem esperar nada mais do que complexidade neste encontro. Se fosse tudo tão simples, tão arroz com feijão, que graça teria? Se alguns dias não saboreássemos deliciosas sobremesas de chocolate ou provássemos o amargor do jiló, não saberíamos a diferença entre o bom e o ruim. Verdade?
O fato é que mesmo o simples arroz, que pode ficar pronto em 20 minutos, passado do ponto, queima e traz o amargor ao que antes tinha um sabor peculiar e deliciosamente conhecido. Relacionamentos são como o prato apreciado por brasileiros e japoneses. Cada um a sua maneira, com um deslize - minha mãe sempre diz que comida a gente faz é na cozinha. Se vc sair, o arroz VAI queimar - você pode arruinar toda uma panela de dois copos do grãozinho branco.
E o que fazer depois do estrago? Corre com a panela para a pia, cobre com um pano, esfria o fundo do recipiente, põe uma colher no meio pro mal cheiro sair....seja lá qual for sua receita, uma coisa é real: não será mais o mesmo. Mas ainda serve para comer. Se o tempo de cozimento ultrapassou dois minutos. Se passou cinco, desista e comece tudo outra vez.
Ok. Não estamos aqui para fazer um curso de culinária on line. Mas a metáfora é verdadeira. Relacionamentos funcionam como nosso prato típico. Mas o cozimento é intermitente. Enquanto não desviamos o olhar da panela, tudo vai bem e sabemos que o desenrolar será proveitoso. Basta uma corridinha ao armário para buscar um prato para a salada e tudo foi para o espaço (estou voltando à metáfora...).
A diferença entre nós e a comida é algo que estou lendo a respeito: graça. O arroz, se perdido, perdido está. O relacionamento, não. Somos movidos por emoções, sem esquecer, claro, da razão. Mas o deslize, podemos perdoar. Não, não estou simplificando o complexo. Continua sendo complicado reconhecer, arrepender, corrigir, expor-se e perdoar. Mas temos acesso a este benefício por meio de Jesus. Escrevo para nós da comunidade. Sabemos do que estou falando. Não preciso entrar no mérito teológico da graça.
Mas estive pensando e chorando sobre este assunto. A graça se aplica ao que consideramos injustiça. O perdão de um assassino, a salvação de um perdido, o amor - incondicional - ao odioso. Nós éramos o que mereciam justiça. Praticamos o mal, mas recebemos o bem. E, agora, me ocorre que, muitas vezes, criticamos nossos "irmãos" que correm para o trono para receber (principalmente quando se trata de dinheiro) e correm no sentido contrário se é para dar (pergunte aos tesoureiros das missões e das igrejas...), mas fazemos o mesmo com a graça.
Como dizia a música cantada pelo CCU, "I'm running to the mercy seat", mas não me peçam para compartilhar desta graça. Estou apontando para mim mesma. Quantos relacionamentos eu permiti que se partissem, que se tornassem mal-cheirosos como o arroz queimado, ao invés de tomar a iniciativa e, com humildade e obediência, chorar o perdão: ou ao outro ou para mim?
Nosso orgulho nos impede de voltar atrás, de ir contra a expectativa da justiça. Nos fizeram mal - este é o decreto -, eles que paguem. Ainda que isso signifique morrer aos poucos e a cada dia. Não temos uma reserva de graça. Engordamos dela e quanto mais obesos melhor. Entupimento das veias por excesso de graça? Parece ridículo.
"Misericórdia quero e não holocaustos". Fazemos muito, somos pouco. Não importa, sinceramente, se o outro terá a mesma reação. O processo da graça começa é em mim. Não posso esperar que vocês me acompanhem. Cada um no seu tempo, cada um a sua maneira. Meu arroz é temperado só com sal. E não fica sem-graça (sem trocadilho, mas é isso mesmo). Se o perdão vai ser o sal para os meus relacionamentos, não posso me esquecer de colocá-lo, então. Comida insossa é intragável e, meus amigos queridos, não pretendo mais perder o banquete.

terça-feira, 18 de março de 2008

Eu

Nunca quis escrever sobre mim antes. Quero dizer, claro que sempre escrevo sobre o que penso sobre as coisas, mas sobre o que eu sou? Não. Não sou fã da auto-reflexão. Prefiro deixar que os outros tirem suas conclusões a meu respeito, mesmo sabendo que tenho alguns parâmetros imutáveis (talvez até sejam mutáveis, mas a flexibilidade é mínima).
Então, resolvi enumerar...não descobri nada de novo para mim, mas talvez haja uma novidade para os outros. Com vocês, Lenir Camimura:

- Eu sou jornalista;
- Tenho verdadeiro prazer em ajudar os outros;
- Não gosto de ser exposta, principalmente quando se trata de erros que não cometi;
- Costumo ser autêntica. é fácil saber quando estou alegre ou triste;
- Eu leio lábios e entendo olhares;
- Eu sou alérgica a muita coisa;
- Eu detesto pimentão e cebola;
- Adoro ter amigos variados (idade, ambiente, histórias, momentos);
- Sou uma boa amiga, pelo menos tento ser;
- gosto de gente sem frescura;
- Detesto gente dodói, que pra tudo faz um drama e que você tem de conversar pisando em ovos;
- Eu perdôo fácil. E esqueço também.
- Eu amo a Deus e meu desejo é agradá-lO;
- Eu sou responsável;
- Eu tenho medo do que os outros pensam ao meu respeito (é, eu sei....);
- Eu tenho o temperamento forte;
- Eu sei ser dócil;
- Mas também sei ser cruel;
- Eu sou agitada;
- Amo cantar;
- Amo escrever;
- Amo ler;
- Amo viajar;
- Eu não sei se tenho planos e sonhos. Mas tenho desejos;
- Eu quero casar, mas me irrita o fato de acharem que só somos felizes se o fizermos;
- Não me considero feminista, mas anti-sexista;
- Eu odeio preconceito em qualquer nível e esfera;
- Tenho nojo de homem comprometido, mas mulherengo;
- Não pise no meu calo em público e depois venha se desculpar em particular;
- Eu dou ratas constantes porque não penso antes de falar;
- Eu sou impulsiva (precisava dizer?);
- Eu fico feliz com as conquistas dos amigos;
- E choro a dor de cada um em minhas orações;
- Amo minha liberdade e (quase) independência;
- Fico abismada com a fidelidade de Deus;
- Não vivo sem música;
- Não escrevo sem fundo musical;
- Eu adoro mandar;
- Mas também sei servir;
-Eu tento entender o problema dos outros me colocando no lugar deles; e sempre espero que façam o mesmo comigo;
- Eu largo tudo para socorrer um amigo;
- E meus olhos brilham quando vejo a diferença que Deus faz na vida das pessoas;
- Dizem que meu sorriso é bonito e, mais recentemente, que ele faz o dia de qualquer um ser melhor;
- Eu não sou boa para receber elogios ou ajuda;
- Mas sou esforçada em aprender a ser humilde;
- Adoro falar inglês e um dia ainda vou estudar fora;
- Fico irritada quando estou cansada e com sono;
- Reconheço minhas falhas e me enterro em dor quando percebo que machuquei alguém....

Talvez haja muito mais o que dizer, mas é melhor parar por aqui. daqui a pouco ninguém mais me ler e isto vai virar só um apontamento egocêntrico...."viva eu".

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Uma máxima sentimentalista

Chegamos a uma conclusão, em consenso, que intimidade é uma m.......Não se pode ficar triste, doente, chateado, problemático, dormir mal ou pegar um resfriadinho sem que um amigo, daqueles que sabe reconhecer no seu andar seu estado de espírito, perceba que nem tudo está bem com você. Não bastasse não deixar que seus distúrbios passassem desapercebidos do resto do mundo, o amigo resolve ajudá-lo e questioná-lo sobre seu problema até que se sinta satisfeito com as respostas.
Há algum problema em remoermos um pouco de amargura? Em chorar? E sentir um vazio existencial como se nada mais fizesse sentido? Qual o problema em não querer comemorar nosso aniversário com festa, mas preferir que o dia passe em branco ou, no máximo, já que não dá para fugir, um aperto de mão e todos aqueles bons clichês que as pessoas nos dizem nessas datas? Por que não podemos não querer sentar junto à turma, ou sair, assistir filme e preferir ficar sozinho?
Há algum problema se as pessoas se preocupam conosco? Se querem nossa felicidade? Se se ofendem com quem nos ofendeu? Se tomam nossas dores e, mesmo respeitando nosso sofrimento, fazem de tudo para nos animar? Há um conflito se nos acham especiais e nos protegem contra situações e pessoas indiscretas?
O verbete "intimidade" significa uma amizade íntima, uma familiaridade, um agir sem cerimônia. Pressupõe a liberdade para perceber o outro. Ao mesmo tempo, também quer dizer "ambiente onde se tem privacidade, tranqüilidade, aconchego". Nos momentos em que nossa dor esconde o brilho no olhar, onde a raiva toma o lugar da apreciação, a mágoa embaça as boas lembranças, é na intimidade que encontramos o socorro.
Assim mesmo nos ensinaram sobre Deus: buscar uma intimidade com o Pai para que nós possamos saber qual é Sua essência. E, mesmo sem procurá-lO, sem querer contato, Ele nos encontra e, por nos conhecer, traz consolo, paz, abrigo e resposta. Muitas vezes, por meio de quem chamamos amigos.
Intimidade é uma m......porque não nos deixa chorar sozinhos.
Mas é um presente porque provamos que há quem se importe, mesmo quando nos sentimos isolados no meio da multidão. E ainda podemos chorar, mas não sem ter um ombro conhecido e um lenço com as inscrições bordadas da amizade.

sábado, 2 de junho de 2007

Compras para uma solteira

Eis o que acontece, Anne. A vida de solteira tem um brilho inconfundível. Hoje, eu me senti envolvida por essa independência resoluta enquanto andava entre as gôndolas do supermercado a procura de um iogurte com suco, que adoro. Vi casais estressados, mães com filhos, pais engravatados brigando com crianças desobedientes e um aglomerado de "vizinhos" gritando por uma marca de leite inexistente.
Passei por todos eles, observando, sem encarar. Enchi o peito de satisfação e não posso negar que me senti extremamente...superior por ser solteira! Andei leve. Feliz com este pensamento de liberdade.
Fiquei pensando em um filme que gostávamos muito de assistir repetidas vezes... "You've got mail" era uma película sem grandes pretensões, mas tínhamos sonhado com a vida do personagem de Meg Ryan, sentada num canto de seu apartamento de solteira. A mim, Anne, só me falta meu lugar. Este poder que o ser solteira me dá tem um sabor perfeito. Fazer o que quero, quando quero, do jeito que quero!
Hoje, Anne, tudo o que penso é que respirar é bom. E ter um coração sossegado é uma bênção. Digo-te tudo isso para que, quando chegar a esta idade, lembre-se que há a chance de existir felicidade e satisfação independente do padrão geral. Na sabedoria bíblica, "não desperte o amor até que ele queira ser acordado".
Mas confesso, Anne, e não se assuste que minhas conclusões sobre estar só, acredito, são uma fase. E como todas, há de passar. Mas olho a lua cheia desta noite agradável e quase lamento a falta daquela dorzinha boa que chamamos de "amor" (o que? Estou convicta, sim. Mas nada me impede de me permitir o benefício da dúvida, certo? :) ...).